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Sobre o Texto
por José Antonio de Souza - Dramaturgo
"Li o texto. Gosto muito. Gosto muito desde o título – Queda – sem o artigo. Você escreve com uma faca na língua. Uma foice entre os dentes. Vai rasgando, ceifando, sangrando. As falas são flechas ásperas, vão diretas ao assunto, manchetes plenas de pólvora. Um estopim por baixo de cada frase. Há nesta Queda qualquer coisa de homem-bomba, qualquer coisa dinamite oculta no estômago para explodir templos e o World Trade Center. Você organiza o seu caos com um agressivo sentido de ordem. Tudo ali é forte, tudo ali é duro, ósseo – e no entanto vísceras, e no entanto miolos, argamassa em que a água molha o cimento e faz matéria seca – na forma – e úmida – no conteúdo, no coração das coisas. Pois ali o coração das coisas é compaixão, é solidariedade com o pobre, miserável ser humano que atira crianças pela janela e é arremessado também ao chão do solo frio. Uma poesia de entranhas, de músculos, do suor nervoso da inteligência. Transmite o real, transpira a realidade assim como “ sem lenço sem documento”, a canção de Caetano, reproduzia a complexidade daqueles anos. Você pega na veia. Extrai o tutano do hoje, expõe a olho a fratura mediterrânea e subterrânea do cotidiano. Mistura os efeitos para solidificar a causa. Não é uma reprodução linear, está bem visto; mas é verdadeira, já que em verdade vivemos uma introfusão atropelante de fatos e emoções. Tem porrada e tem doçura, o texto. Tem mordidas na face e tem apelos ao carinho de mãos. Essa leveza invisível da possível borboleta que bate ou não bate asas na paisagem ruidosa dos acontecimentos. Esse risco burocrático do homem de bigodes e sua arma sob o sovaco. Pão pão queijo queijo e licença poética. O rumor dos estalos secretos e o som perceptível da fala de toda hora.
Gosto do seu domínio da linguagem. O ponto certo. A vírgula oportuna. O ritmo preciso. O “vernáculo” compreendido como necessidade fundamental no exercício da expressão. Há uma galeria de gritos e rostos em passagem acelerada pelo percurso da Queda. O rosto da multidão em tombo vertical. Cortes elípticos. Esboços, decalques, silhuetas, uma lépida colcha de retalhos tecida à moda das vestes de Cristo: a túnica inconsútil. Não se veem as dobras da costura. Não se enxergam as linhas. E no entanto tudo está feito, justo, sob medida.
Queda é aconchegante e acachapante. Acachapante no sentido de que reproduz uma situação esmagadora – e o autor não alisa. Gosto disso. Gosto muito disso. O autor não passa paninho no dodói do público. Pressupõe do público a virilidade com que escreve. Diga aos seus inimigos para não confundir virilidade com grossura. Diga aos seus desafetos que a poesia pode ter farpas e escarpas e ser, em resumo e essência, um ato de puro e doce amor pela raça humana. “Às vezes uma dor me desespera” – disse Bilac em algum lugar. “ Tu dirás que é a Morte; eu direi que é a Vida” – este verso de Machado, do poema “ Uma criatura”, sintetiza a meu ver o espírito de sua peça. Sua loucura tem método. A sequência dos goles dá prova disso. É, portanto, a loucura do poeta, aquela em que a lucidez pede desvario, em que o desvario exige controle, em que o controle não inibe a víscera, loucura do raciocínio e do instinto selvagem em estado de harmonia musical, da palavra certa na emoção do incerto, mórbido você aqui, místico você ali, rascante neste verbo, sinuoso no seguinte, tem um desenho de bailarino na sua escrita, tem um contorno de Jack O Estripador, você corta dançando, decepa tocando flauta, seus desatinos não excluem a lógica, sua lógica não exila o lúdico, achei uma ordenação precisa no movimento de rotação e translação de Queda."
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